Título: Uma história de percepções
Museu: Amadeo de Souza Cardoso (Amarante)
Ano: 2007
Exposição com Pedro Rocha

 

O Tâmega desce da Galiza, por entre veigas e vales e sulcos profundos.
Entrecortam-no os açudes (com os moinhos e as azenhas), as alpondras e os vaus, as ínsuas e os seixos rolados ou as rochas erodidas.
As margens de salgueiros, amieiros e freixos espelham-se nas águas, no claro-escuro de caules oscilantes.
No seu deslizar, o rio traz os aluviões minerais, um leito de curas e de redemoinhos, de morte, e rol de afogados.
Com os vaus dos almocreves, encurtando as distâncias, concorrem as barcas de passagem (de Tourago, Formão e Gondeiro), as pontes e os pontífices de todas as ligações…
A primitiva estrada do Marão, com os restos da calçada romana e a “Casa da neve”, na Serra, a nova estrada, de Camilo, e a do Douro (ou da Companhia) convergem na Ponte de Amarante, estratificada pelos tempos de Santiago e seus romeiros, filtrada nas portagens do Conde de Redondo, sobre a ponte ameada...
Afinal, “uma rua comprida” e uma povoação arruada desde a rua do Cabo e da Madalena, a nascente, (vencendo a ribeira do Arquinho com o moinho ao lado), desdobrando-se, a poente, para Guimarães e para o Porto (pela calçada de Relas) e, por caminhos vicinais, para as Terras de Basto.
Assim se constituíra a “vila!” do Entre-Douro e Minho, com pequenas vias (ou veias) por entre o espaço laico e o religioso, unindo o “entremuros”, os bairros e os terreiros das encenações, com cortejos cívicos e festividades cíclicas, com “regozijos” de luminárias, “bandos” e repiques, e com as vozes do “solene Te Deum”.
É este espaço, vivido e recriado pelos factos, que são o tempo, trespassado pelos séculos, entre uma ruralidade e uma urbanidade, expressas em gestos coloquiais, em instantes ou ritos de passagem, nos tempos descontínuos das memórias esvaídas, com rugas de granito, que Pedro Rocha e José Manuel Soares partilham, em cumplicidades, na litania de uma “história de dias, pessoas e lugares”.
Afastam-se, visivelmente, do lugar-comum, de uma história das imagens imediatas, do levantamento documental ou do pitoresco, como fatalidade Pedro Rocha, vindo da área da Pintura, capta elementos da paisagem, a ênfase dos materiais corpóreos, a água e os dias (o sol e as sombras), com rigores de enquadramentos e de composição.
Entre a natureza e o artifício, regista os filtros das árvores e os trilhos das margens, as raízes descarnadas sobre os rossios, os sulcos do tempo no granito da Senhora dos Aflitos e as formas mínimas de uma arquitectura de surpresas e alguma ironia.
José Manuel Soares explora os contrapontos dos rostos, as dualidades e a tensão dos olhares, os encontros e os instantes.
Os seus retratos introspectivos, com figuras intemporais, retratos de família ou de ocasião, são tingidos duma casta ironia, de sensualidade e doçura
Aos gestos urbanos contrapõem os gestos distantes de Manhufe, na afirmada polaridade de cultos e de culturas.
Mas a Ponte de Amarante, na sua carga simbólica e metafórica, com o rio dos olhares (e a lembrança de “O Pobre tolo”, de Pascoaes) é para os dois artistas o palco central ou a síntese das aparições, de um tempo cinemático de continuidades e de rupturas, de sedimentos ou sobreposições.
 
António Cardoso
Director do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso