Título: Aparelho fotográfico LX
Galeria: Pickpocket (Lisboa)
Ano: 2012
Exposição individual

AparelhoFotoLX_FP

Na fotografia deu-se o encontro entre ambos. Depois, veio o desafio. Escreve umas linhas, disse-lhe o fotógrafo. E o sim, assim incauto, foi a resposta de quem confundiu o verbo. Traça umas linhas, ouviu ela.

As imagens vistas fizeram-na recordar uma frase. "Uma certa dança está em toda parte". E atrevida ensaiou uns primeiros movimentos para imprimi-los numa superfície qualquer. Umas linhas, os percursos traduzidos do seu olhar rodopiante sobre aquele mosaico.

Passo a passo, o fotógrafo controla o que capta a retina alheia. Define o evidente e o escondido, a livre pulsão do latente. Na ambivalência das suas imagens, descontinuidades, recortes (ex)tensos, ritmos diferentes, instauram a dúvida. Sempre a questão da falsidade da representação a pairar no ar. O dito que não é dito, o interdito, tão flutuantes e contemporâneos. A ausência imperfeita na revelação do abandono, a presença desmesurada na evidência do banal e do quotidiano, a intensidade contida do excesso e do escasso... Provocam! Embaraçam! Retirados os biombos, revelam pensamentos despidos onde a vida exige vitalidade. Fazem parte do jogo do fotógrafo!

Um jogo de regras fáceis e, no entanto, inacessível, pensou ela. Emoções disse, ele. E o aparelho fotográfico entre os dois, impassível. Tão distante na sua clausura e tão próximo na impossibilidade da sua inocência. Perigoso brinquedo de cumplicidades programadas que não duplica o mundo. Poderoso efeito multiplicador nas mãos do fotógrafo, puro talento.

Umas linhas? Ela não desvia o olhar:
"Uma certa dança está em toda parte".

Regina Costa
Artista Visual