Título: Square
Museu: Amadeo de Souza Cardoso (Amarante)
Ano: 2005
Exposição individual

Square_FP

A questão ser ou não-ser, vistas bem as coisas, é uma questão de fasquia. Só o ser humano a coloca e não pode eximir-se a fazê-lo. Aí está a possibilidade de ser feliz… ou não. A fasquia põe-se para a frente, para trás, para cima, para baixo e a maneira como a regulamos é a maneira de ser ou de não-ser. Aquilo que aconteceu, quando é revisto de hoje para ontem, nunca é bem o que aconteceu e essa é uma boa hipótese de desenhar o futuro. Primeiro, porque o futuro está bastante ligado à revisão do passado e depois, porque o futuro nunca é aquilo que se desenha, o que faz do desenho a oportunidade de cada um poder brincar ao criador de si mesmo. É no espírito que tudo se passa. Vai-se ao encontro de alguém, que está à nossa espera sem o saber. E nós também o esperamos e quando o encontramos já não somos aquele que estava à espera, porque o tempo tudo transforma. Yourcenar di-lo. Nem aqueles que conhecemos e depois perdemos são eternos; o esquecimento descama-os.

Os estóicos tendo uma visão suspensiva da vida defendem que não se deve pôr fasquias; essas marcas comprometem a existência, introduzem o desassossego do “ainda não é”. Nem espírito nem corpo.

Cinco fotografias em formato grande, entre a domesticação do espaço, a domesticação do tempo e a tirania de ambos. Os pés estão em repouso, de um movimento anterior que há-de tornar, sem ser o mesmo. O ombro, com estas sardas ou outros sinais, parece insinuar uma certa espera e porque não se sabe qual é, tudo pode ser adivinhado. A mulher e o rapaz olham para lados diferentes, vêm coisas diferentes, juntos no mesmo meio de transporte, que pára e arranca em estações que têm horários. O homem da piscina, esforça-se por qualquer coisa; quando a conseguir ou desistir dela, outras coisas, de certo, se mostrarão. A história de cada um, a que se tem de viver sem se saber qual é, tem isso de desejo, de impossibilidade e de consolo. Pode haver uma grande alegria na consolação pelo esquecimento. Não sabemos nada das personagens que aparecem nestas fotografias, mas podem construir-se todas as histórias que se quiser e nenhuma delas é a verdadeira, nem para o próprio. Por isso falo da alegria e do consolo e do esquecimento, que acabam por misturar-se de vez em quando para trazer um pouco de paz. Esquecer e ser esquecido é uma grande bênção, ainda que a vida pareça pedir eternidade. Há quem tenha pânico do esquecimento, porque esquecer é matar e morrer. Não há morte sem luto e nunca se sabe quanto tempo demora a restaurar-se os pontos de luz. Esquecer é esvaziar e quem não tem nada, não carrega nenhum fardo… o problema é que essa qualidade não é dos humanos. Não sobra senão o esquecimento por soluços que deixando restos, sedimenta uma identidade; e dizem que essa identidade faz falta para se declarar “o meu fardo”, “a minha história”, “o meu futuro”, “a minha dor”, “o meu consolo”, “a minha vida”. Um dos maiores entraves ao esquecimento e portanto, uma das grandes vantagens para ir, então, arquitectando a identidade é o corpo, pleno de componentes com sedimentos, a maior parte deles sedimentos de memória. Eu arriscaria dizer que a memória da pele é uma fasquia que se instala por si. É cheia de subtilezas, a pele, e de perversidades. Diz-se que a pele é superficial, mas na verdade, isso é uma tentativa de encontrar desculpas para não dar certos saltos. A pele também tem raízes e nunca se sabe bem a que profundidade pode escavar e enterrá-las. O melhor de tudo é a precaução. O beijo na boca é muito perigoso para quem, por princípio, recusa as fasquias – ou pensa que as pode recusar –, porque o beijo na boca fica muito mais próximo do sentimento do que os genitais, por exemplo.

Há sempre a possibilidade de ensaiar uma boa consciência – através do corpo – e fingir que se é invulnerável. Talvez tudo dependa daquilo que cada um pretende de si. A fasquia é o narcisismo e o mundo um grande espelho? A máxima liberdade é a prisão em si próprio e esse lugar cativo pode conseguir-se com mais facilidade por via do ascetismo, por via da indiferença ou por via do desprezo. A fasquia é, provavelmente, o lugar em que colocamos o desejo. A sabedoria está em acreditar na metamorfose do dia que se sucede ao outro dia e que essa metamorfose não se pode parar, embora quando o desejo se mistura com sentimentos seja difícil aceitar esse argumento, porque é admitir uma coisa e o seu contrário, tentando manter o encantamento pelo mundo. E manter o encantamento pelo mundo obriga a estar desprevenido e estar desprevenido é estar vulnerável.

Inverno de 2004
Fátima Pombo