Editora: Junta de Freguesia de Alfena
Última edição: 2018
Nº de Páginas: 64
Dimensões: 210 x 210 (mm)

Texto de Ana Rita Soares

Um senhor, carregando já bastantes anos aos ombros, sorri na nossa direção. Decido meter conversa. “É de cá?”, pergunto. Ajeita a boina como quem se prepara para contar uma história e explica pausadamente: “Fui de muitos lados, menina. Mas sempre vivi ali perto da capela de São Roque, sabe onde é?”. Aceno em afirmação. Ele não espera a minha resposta e prossegue. Fala-me quase de um só fôlego sobre os costumes e as tradições da terra e de como se está a desenvolver Alfena nos últimos anos. Terminada a conversa, enquanto me afasto, ainda o consigo ouvir cantarolar: “Alfena, Alfena!/ Tens nobreza e condão/ Há quem te julgue pequena,/ Mas grande de coração”.

Chamava-se na Idade Média “São Vicente da Queimadela”, topónimo ao qual D. Dinis acrescenta em 1307: “sam Vicente da queimadella ou Paaço dalffena”. São conhecidas as diferentes interpretações para a origem do topónimo que dá nome à cidade. Um dos primeiros a avançar uma hipótese foi o Padre António Carvalho da Costa, na sua Corografia Portuguesa (1706), onde escreve que “Alfena” tem a sua origem numa “batalha, que allidemos aos mouros em que entrárão sete Condes” datada do século VIII; mas o tempo foi desacreditando o historiador. Contam-me que a sua origem está na palavra árabe “al-henna”, uma planta arbustiva, de flores brancas e bagas negras, que se utiliza em várias cerimónias no norte de África e no sul da Ásia para ornamentar o corpo ou tingir o cabelo. Só posso imaginar as mil e uma histórias que terão ocorrido aqui, entre alfenas.

Quando passamos pela estrada nacional e aproveitamos para olhar para o vale, notamos a ousadia com que a torre do batistério da igreja recorta a paisagem. Paramos onde Alfena começa (ou acaba): na Quinta do Ribeiro. Na imponente entrada, o musgo ameaça devorar a heráldica da família. Do outro lado do rio, procuramos um ponto alto, para desenhar pouco a pouco o mapa que vamos seguir nas próximas horas. Desde a capela da Nossa Senhora do Amparo vê-se a união entre o Xisto, o Outeirinho, a Ferraria e a Codiceira. Inevitavelmente, os meus olhos procuram o Rio Leça.

Como se seguíssemos o tapete de flores naturais realizado para a procissão em honra da Nossa Senhora do Amparo, que ocorre no último domingo de julho, caminhamos da capela para a Igreja Matriz. Do fundo da avenida, o Padre Nuno Cardoso observa-nos, alheio ao trânsito que passa pela Rua de São Vicente que acompanha o Parque do Vale do Leça. A Igreja Matriz conjuga vidro, madeira e betão, tal como foi idealizada em 1963 pelo arquiteto Moreira da Silva. Da antiga igreja, demolida em finais da década de sessenta, ficou a capela-mor, que hoje se une ao Centro Social e Paroquial.

Na praça ao lado da igreja e do cemitério ainda se vê o que ficou da festa em homenagem ao padroeiro da cidade, São Vicente. Não nos detemos mais. Continuamos a avançar, costa acima, em direção ao Pavilhão Gimnodesportivo do CSPA. Em 2001 e 2002 dois atletas formados aqui ascenderam a pódios europeus e mundiais de patinagem artística. O diretor da secção mostra-nos com orgulho a sala onde trabalha, entre troféus. Ao fundo, ouvimos o eco dos patins que deslizam pelo ringue. Não tão longe daqui está o Atlético Clube Alfenense, que no ano passado celebrava cinquenta anos dedicados à promoção desportiva. Do futebol ao ténis, passando pelo basquetebol e atletismo, o clube tem-se vindo a destacar a nível nacional. Muitos de certeza ainda recordam ver José Magalhães treinar nas ruas de Alfena para depois marchar ao longo de cinquenta quilómetros nos Jogos Olímpicos de Barcelona e Atlanta.

Deixamos a visita à setecentista Quinta das Telheiras - e à sua capela da Nossa Senhora da Piedade - para mais tarde. Antes de ficarmos sem luz, queremos aproveitar as vistas do apeadeiro de Cabeda. Para a maior parte das pessoas, a espera pelo comboio faz parte das rotinas diárias. Passa o comboio em direção ao Porto, mas nós ficamos aqui, a observar a cidade. Adivinhamos ao fundo a casa da D. Albina e os seus extensos campos de cultivo. Se fecho os olhos, consigo sentir na brisa o cheiro a broa de milho.

Manuel da Rocha Ferreira - mais conhecido como “o Encrenca”, como o pai - foi empregado de José Augusto Júnior, e estabeleceu-se aqui em Cabeda no princípio dos anos sessenta. Hoje continua aqui com a esposa, Juliana, a criar brinquedos em madeira, pintados manualmente. Encontrámo-los na oficina onde trabalham entre calendários, santos e pósteres do FCP há mais de cinquenta anos. Noutro lado de Alfena, na Codiceira, outro antigo empregado de JAJ, Armindo Moreira Lopes, manteve a oficina de brinquedos de folha durante vários anos. Da sua imaginação saíram trezentos e sessenta e cinco modelos - desde os carros de bombeiros às locomotivas - que levava na sua carrinha Fordson para as lojas do Porto. Hoje são os adultos que os olham com a nostalgia de quem ainda se lembra dos dias passados na rua a brincar.

Mas esta história começa antes. No final dos anos vinte, José Augusto Júnior teria nas mãos dos primeiros brinquedos fabricados em Portugal.Trinta anos depois inaugura a “Jato” e inicia a fabricação de brinquedos de plástico. Eram os anos cinquenta e as crianças dividiam o tempo entre as austeras salas de aula do Estado Novo - uma sala museu pode ser visitada no CCA, instalado numa antiga escola primária, edificada por iniciativa do Comendador Manuel Ferreira de Matos - e a rua, onde passeavam pombas, peixes, galinhas e ciclistas de cores vivas. Já em 1977, os herdeiros de José Augusto Júnior renovam a identidade dos brinquedos portugueses: a ”Pepe” - evocando os apelidos dos herdeiros Penela e Penela , agora Bruplast, continua a fabricar brinquedos até à atualidade.

Até agora, ainda não perdemos o Rio Leça de vista. Há umas horas, atravessávamos a ponte de granito milenário sobre o rio para chegar à Capela de São Lázaro - antiga Capela da Senhora dos Remédios – na estrada medieval que ligava o Porto a Guimarães. Agora, estamos a chegar ao moinho do Barrela, perto da levada do rio Leça. Observo, à distância, um casal: ela tira fotografias, ele confia na memória para reter o momento. Se o silêncio se rompe, é pelo constante ruído da água.

Ana Rita G. Soares