Editora: Junta de Freguesia de Valongo
Última edição: 2017
Nº de Páginas: 64
Dimensões: 210 x 210 (mm)

Texto de Ana Rita Soares
Design de Filipe Costa Alves

Este livro foi editado pela Junta de Freguesia de Valongo sob a presidência de Ivo Vale das Neves no âmbito das comemorações dos 180 anos de elevação de Valongo a vila.

Viemos cedo para aproveitar a primeira luz da manhã. Começamos no centro da cidade, perto da igreja matriz. É um percurso que já fizemos várias vezes no dia-a-dia mas hoje, finalmente, temos tempo. Quando o caminho vira à direita, acompanhando o Parque da Cidade, atravessamos uma ponte assente sobre o Rio Simão. Vamos pelo Corredor Ecológico, um percurso pedonal que liga o centro de Valongo a Pias, passando pela aldeia de Couce. São dez quilómetros de passadiços, vedações e pontes de plástico reciclado.

Explicam-me que São Martinho quis facilitar o caminho àqueles que, como nós, se aventuram por estes lados: segundo a lenda, há cisternas escavadas nos topos rochosos da Serra de Pias onde nunca falta água. Caminho atenta às plantas nas quais, confesso, nunca tinha reparado. Há carvalhos, sobreiros, azinheiras e plantas insectívoras que vão acompanhando a descida até à Azenha. Vemos o Rio Simão desaguar no Rio Ferreira e, ao seguir a margem, temos a Serra de Pias à esquerda e a de Santa Justa à direita. Ao fundo, enquanto a vista do vale vai ampliando, começamos a ver a aldeia de Couce. É destas aldeias que parece parada no tempo, onde as pessoas ainda saem à rua para estender a roupa no pátio da frente, num estendal apoiado com dois paus entre a mangueira. A tranquilidade deste lugar é imperturbável. O único ruído é o choro contínuo da moura encantada, condenada a guardar para sempre a serra.

O brasão de Valongo não evoca antigas vitórias conquistadas no campo de batalha; pelo contrário, dedica espaço ao trigo e à roda dos moinhos: elementos que falam da relação histórica entre os valonguenses, os rios, e as terras. No século XVIII, mesmo antes da elevação a concelho, já se documentam mais de 160 rodas e 100 padarias a trabalhar em Valongo. Desse tempo, ainda sobrevivem alguns moinhos de água; se continuássemos pela margem do rio, acabaríamos por chegar ao da Ponte do Rio Ferreira onde estão expostos os instrumentos que faziam parte do quotidiano de muitos valonguenses.

A extração da lousa do subsolo de Valongo começou a meados do século XIX e tem-se mantido até à atualidade como uma das prinicipais imagens de marca do concelho. Ainda ninguém me falou dela e começo a estranhar. As pessoas já se habituaram tanto à sua presença que, se calhar, já nem reparam: está nas escolas, nas beiras dos quintais, nas margens do rio...

A partir daqui aproveitamos a boleia do jipe e continuamos na direção “sempre a subir”. No cimo, vemos a silhueta da capela de Santa Justa que nos tem acompanhado lá de cima durante a maior parte do percurso. A esta capela está associada não só Santa Justa mas também a sua irmã, Santa Rufina, padroeiras dos oleiros. Um pouco mais abaixo, na encosta oeste, está desde o século XI uma capela que foi originalmente dedicada a Santa Justa, mas que atualmente se conhece como a “capela de São Sabino”, protetor dos deficientes. São Sabino, bispo de Sevilha até ao ano 304, foi severamente castigado por ter retirado os corpos de Santa Justa e de Santa Rubina do poço para onde tinham sido lançados para as sepultar num cemitério cristão. Não será um acaso que os encontremos aos três cá em cima.

Aproveitando a perspetiva privilegiada, começamos a tentar adivinhar as cidades que se desenham pequeninas lá ao fundo. O Porto é facilmente reconhecível. Durante séculos (e ainda agora), Valongo manteve uma importante relação com a cidade portuense. Segundo o foral manuelino de 1519, Valongo (aí denominado “da Estrada”), era lugar de passagem de “viandantes e almocreves” que transportavam mercadorias entre o Porto e o interior. Não muito tempo depois, as padeiras iam pela serra de jerico e, de madrugada, passavam a Rua do Bonfim. A partir daí começavam a distribuir o pão e a regueifa que levavam nas cestas pela cidade. Só regressavam à noite, em grupo, para se protegerem dos assaltantes. A tradição, claro, foi mudando e o jerico foi substituído pelo comboio e as camionetas. Os meus pais ainda se lembram das mulheres que apregoavam com voz cantante a regueifa quando chegava o comboio: “Regueifa de Valongo, quem merca a regueifa!”. Eu já não sou desse tempo.

Chegamos a um “fojo” poucos metros depois de passarmos as capelas: um nome popular para as minas romanas que significa “armadilha”. Um conselho: não explorem as serras depois do entardecer, quem sabe o que se pode encontrar naqueles poços... Além das criaturas mágicas que apenas posso imaginar, a temperatura estável, a humidade elevada e a luz escassa conformam o habitat favorito dalgumas espécies protegidas: o morcego-de-peluche e a salamandralusitana por exemplo. O fojo mais importante é o das Pombas. Quarenta e cinco metros debaixo da superfície foram encontradas peças em bronze, latão e cobre, além de vasos e lucernas do século II a. C. Argumentos que confirmam o que todos os valonguenses sabem: mesmo antes de Portugal existir, já os romanos exploravam o vale em busca de ouro. Podemos regressar ainda mais no tempo e continuaremos a encontrar histórias para contar sobre as serras: aqui também foram encontradas jazidas fossilíferas de Trilobites e outros vestígios da Era Paleozóica, provando que esta região esteve submersa há mais de duzentos e trinta milhões de anos.

Depois da caminhada (e da boleia) voltamos ao centro de Valongo; mesmo a tempo de começar o nosso segundo passeio: a rota histórica das padarias e biscoitarias. Em 2015, as mais de 40 casas dedicadas à panificação foram assinaladas através de uma placa de ardósia. A nossa primeira paragem é uma das padarias que ainda está em atividade e mantém intacta a tradição de cozer o pão em forno de lenha. Decido pedir um molete. Sempre achei estranho que chamem “molete” ao pão pequeno. Cheira-me um pouco a lenda, mas se calhar até é verdade: segundo me contaram em pequena, este nome retrocede às Invasões Francesas. O general francês que comandava o exército inimigo, Molet, era um grande apreciador do pão de Valongo. Mesmo em tempo de guerra, os fornos não paravam e as cestas levavam o pão pequeno à cidade do Porto. Diziam as padeiras: “Lá vai o pão para o Molete!”.

A última paragem tinha de ser aqui, nas fábricas de biscoitos de Valongo. Nas minhas voltas pela Biblioteca Municipal de Valongo, encontrei uma receita do início do século XX dos “biscoitos de milho”. Têm alguns segredos, alguns mais inesperados que outros; os truques são usar farinha “da melhor” e acrescentar 30 gramas de amoníaco à mistura de farinha, ovos, açúcar, manteiga, água e canela. Pensei em perguntar a receita atual dos biscoitos, mas acabo por decidir que alguma história tem de ficar para contar da próxima vez.

Ana Rita G. Soares